terça-feira, maio 3

Malditos

"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez." - Provérbio chinês
"A ignorância é uma dádiva" - autor desconhecido


Já se conheciam a pouco mais de 10 anos, mas só vieram a se apaixonar 5 anos depois. E a partir daí nunca mais viveram em paz.
O fato era que não combinavam. E nunca combinariam. Pensavam de formas opostas, tinham objetivos diferentes, atitudes diferentes, enfim, almas diferentes. Todos já sabiam que não daria certo, que bem lá no fundo se odiavam mutuamente.
Todos já sabiam, menos eles. E assim como aquele que não sabia que era impossível, eles continuaram vivendo juntos, quer dizer, não exatamente juntos. É verdade que em cinco anos foram 14 fins de namoro e 15 voltas apaixonadas. Mas contando bem direitinho, eles haviam ficado mais tempo juntos do que separados, uns 4 dias pra ser mais exat, logo, saldo positivo. E isso pra eles já bastava, pois tudo era lógico, se amavam e pronto. Apesar das traições por parte dele, das mentiras por parte dela, das humilhações e gritos raivosos por parte de ambos, eles se amaam e não lutavam muito contra isso. Não eram tão felizes quanto queriam, de vez em quando até odiavam ter de se amar, mas isso não impedia esse maldito sentimento de existir. E eram fracos, não lutavam a maldição. "Comodismo" - diziam alguns.
E depois de 10 anos conhecidos, 5 anos apaixonados, 14 fins de namoro, 15 reconciliações, gritos, traições, mentiras, choros e algumas alegrias, resolveram se casar.
Mas o fato é que ainda não combinavam, e todos ainda tinham certeza disso. "Não dura nem 3 meses", foi o comentário corrente dos amigos durante a cerimônia de casamento.
Mas ninguém havia ainda os convencido de que era impossível viverem juntos, e ainda ignorantes desse impossível, casaram.
E surpreendentemente nunca houve o tão esperado divórcio. Não se sabe bem se foi por finalmente terem conseguido se entender ou para evitar todo o dinheiro e problemas desnecessários presentes no processo de divórcio, já que era claro e óvio que iriam acabar voltando mais cedo ou mais tarde, e daria muito trabalho casar e fazer tudo de novo.

Após 56 anos juntos, 4 filhos, 7 netos e 1 bisneto, se separaram finalmente, desta vez definitiva. Ela o abandonou, não pelas traiçoes, gritos ou humilhações (já não mais tão frequentes graças somente a idade), mas por uma parada cardiaca. E ainda assim a tal maldição ainda não acabou.
Ele não podia viver sem ela, nem ela morrer sem ele. Só precisaram esperar uns três meses, quando ele não mais acordou.

Muitos não acreditam, acham que finalmente houve a inevitável separação. Mas uma meia dúzia foi enfim convencida de que era enfim possível viverem juntos, e que ainda hoje, quando não mais vivem, estão em algum lugar, entre gritos e humilhações, mentiras e traições, enfim, como sempre.
Inclusive as velhas e frequentes separações, mas principalmente, com a eterna e maldita necessidade da volta.

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Tenho uns dois textos que começam assim... juro mesmo... só muda os anos...

No meio do texto pensei que poderia ter escrito ele... juro mesmo... mas só até o meio...

Não vou falar que gostei, mas tb não odiei... enfim...

1:39 PM  
Anonymous Anônimo said...

Bem, pra mim seria impossivel comentar sobre este conto sendo imparcial, entao prefiro nada dizer..

Comentario mais pra constar que passei por aqui..

Continue escrevendo que continuarei lendo..

Bjinhos!!

PS:1-Estou com saudades de ti..
2-Proponha uma parceria ao Thiago.. Qdo faltar textos seus, q tal publicar alguns dele??

4:20 PM  
Blogger Cla452 said...

Adorei o texto!

É engraçado que eu não consigo me imaginar numa situação assim, tão apegada a alguém...Algo obssessivo no mínimo, nem um pouco saudável.

11:01 AM  

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