quarta-feira, agosto 3

Um Conto de Fadas

Queria escrever uma história de amor. Mas não qualquer história de amor, uma que pudesse contar aos filhos.Quem sabe até aos netos... Mas como começaria?
Poderia começar por elementos básicos. O primeiro e mais importante seria a princesa. Pode soar meio antiquado, mas em um século em que não existem mais reinos, príncipes, cavalos brancos ou dragões, pelo menos uma princesa deve haver sobrado.
E sobrou! Havia ainda uma princesa perdida no reino de concreto em que habitava. Com a saia leve, solta e longa (dessas que se deixam bailar com a alegria sutil da brisa) e os cabelos soltos também participantes da dança, só podia ser sua procurada princesa.
Ela virou-se, e veio a certeza. O castanho dos seus olhos se revelou, e como se sugasse todo o mundo em sua volta, se tornou a única cor, o único símbolo, a maior alegria presente em todo aquele triste reino.
Ele se tornara feliz, e por um momento até se esqueceu de sua história de amor, ficando só com o amor (e aquilo bastou pra ele, por um momento). Mas agora que encontrara sua linda e terna princesa, com voz de sereia, corpo de ninfa, além do rosto de anjo e olhos... bem... não havia nada como aqueles olhos neste ou em qualquer outro mundo. Agora que encontrara sua princesa, não poderia mais abrir mão de sua história de amor.
Já tinha sua princesa. Faltava agora o príncipe. Poderia ser um príncipe alto, loiro, forte de olhos azuis, que sempre conquistava as princesas dos reinos em que pisava... mas não. Se fosse qualquer outra princesa, ele até deixaria que o tal príncipe exibisse todo o seu charme. Mas aquela princesa não, ela era especial, e nada podia dar errado. E a história era dele mesmo, não queria outro qualquer atrapalhando.
Mas também não iria querer enganar a princesa se disfarçando de príncipe. Assumiu então como o plebeu que era. A princesa e o plebeu... bem clichê, mas pode ser interessante...
Ok, uma princesa linda e terna, um príncipe loiro, alto e... digo, um plebeu um pouquinho mais alto que a princesa (e a princesa estava longe de ser a mais alta do reino), com cabelos enrolados e castanhos (combinava com os olhos da princesa), sem o charme habitual dos príncipes (borogodó) mas com a vontade e esperança habitual dos tolos, que os faz tropeçar constantemente só pra só pra lhes dar motivos pra sempre levantar depois.
O plebeu agora teria de passar por alguma provação. Algum desafio pela princesa, afinal em histórias realmente boas as coisas nunca são tão fáceis assim. Poderia ser um dragão, ou uma madrasta má, ou... sim! Ela parecia tão inalcançável pra ele, tão simples e terna, porém tão perfeita e distante, nada mais óbvio que uma torre! Ela estaria presa no topo de uma torre de cristal. Inalcançável como qualquer princesa deve ser.
Na torre não havia escadas ou elevador, e ela tinha belos cabelos brilhantes e ruivos, mas não longos o suficiente para brincar de Rapunzel. Como então faria pra chegar ao seu tesouro de olhos castanhos? Poderia se agarrar nas asas de um beija-flor, que seduzido pelos beijos da princesa subiria até lá. E podem até falar que um beija flor tão minúsculo não poderia carregar um ser humano, mas ora, é uma história de amor, não precisa de compromisso com a realidade. Afinal, no mundo real, as princesas sempre acabam com os tais príncipes galantes e extrovertidos com cavalo branco. E o pobre plebeu nem dinheiro tinha pro cavalo, fosse a cor que fosse. Vivia de caronas dadas por pessoas de bom coração.
Mas apesar da idéia do beija-flor ser deveras interessante, não era poética o suficiente. Queria mais.
Gostava mais da idéia de usar asas de cera, que ele já havia ouvido falar em algum outro lugar. O inventor era um tal de Ícaro, belo rapaz, inteligente e sonhador. Pena não ter inventado o para-quedas também, seria útil com aquelas asas.
Precisaria então de cera, obviamente. E então se lembrou de uma lâmpada mágica que coincidentemente (ou melhor, por forças ocultas do destino) havia encontrado dias antes e guardado em sua mochila.
Pegou a lâmpada ainda cheia de poeira (deixando a mochila também razoavelmente empoeirada) e a esfregou, para limpar. E supreendentemente (e quem imaginaria tal?) heis que surge um gênio de dentro da lâmpada e lhe oferece 4 desejos (a história é dele e o gênio lhe oferece quantos desejos quiser).
Sem pensar muito ele pede um estoque de cera para as asas, um buquê de flores, uma caixa de chocolates (duas coisas que sempre funcionam nessas horas) e... bem... não tendo mais nada pra pedir, pois ao lado da princesa não precisava de muito mais que aquilo pra ser feliz, pediu a paz no mundo. Talvez um dia aquilo viesse a ser útil.
Feito isso, pôs mãos a obra e começou a construir suas asas de cera. Deu um certo trabalho, pois ele não era lá dos melhores em trabalhos artesanais, mas valia a pena se esforçar pela princesa.
Com suas asas prontas, o buquê em uma das mãos e os chocolates na outra, voou. Experimentou a sensação de se perder pelo espaço. E para não repetir o erro de Ícaro, vvou de noite, com a companhia das estrelas e de sua maior amiga, a sempre pálida Lua, que refletida naquela torre de cristal só fazia o mundo e sua princesa ficarem ainda mais lindos.
Chegando no topo, diante daquela enorme varanda de cristal, ele a viu: os cabelos ruivos, pele clara e olhos infinitamente castanhos. Estava com a saia ainda bailarina, mas os cabelos presos agora. E isso ressaltava a forma de seu rosto, a perfeição da face e as lindas bochechas. Ninguém resistiria a bochechas como aquelas. Ninguém.
Ele a olhou nos olhos, havia algo de melancólico neles, a ao mesmo tempo inspiravam tanta alegria. Tudo era tão dúbio naquela menina... e era exatamente isso que a fazia especial.
Ele a olhou nos olhos, sem saber o que dizer ou fazer.
Ela o olhou nos olhos, de uma forma que quase o fez perder os sentidos, por perceber que naquele momento só havia um sentido.
Ele ofereceu-lhe as flores e o chocolate, e ela os aceitou. Apenas sorriu, iluminando e envergonhando até mesmo a lua e todas as suas pequenas estrelas.
Se aproximaram um do outro, e como numa explosão, sorriram e se tocaram. Ela pegou nas mãos dele, e se sentiu segura, firme, como quem chega em terra firme depois de meses viajando em um navio. Ele tocou em sua face, morna, um certo calor que o encantava e lhe fazia querer o melhor pra ela, ser o melhor pra ela.
E como mágica se beijaram.
E tudo foi perfeito a partir dali, como só poderia ser em um conto de fadas.
E ele conseguiu sua história de amor, com sua princesa, príncipe (um simples plebeu, na verdade), provações e um apaixonado e único beijo no fim. Tiha tudo! Ou melhor, quase tudo. Faltava apenas um final... o melhor final que poderia existir.
E foram felizes para sempre.

terça-feira, maio 3

Malditos

"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez." - Provérbio chinês
"A ignorância é uma dádiva" - autor desconhecido


Já se conheciam a pouco mais de 10 anos, mas só vieram a se apaixonar 5 anos depois. E a partir daí nunca mais viveram em paz.
O fato era que não combinavam. E nunca combinariam. Pensavam de formas opostas, tinham objetivos diferentes, atitudes diferentes, enfim, almas diferentes. Todos já sabiam que não daria certo, que bem lá no fundo se odiavam mutuamente.
Todos já sabiam, menos eles. E assim como aquele que não sabia que era impossível, eles continuaram vivendo juntos, quer dizer, não exatamente juntos. É verdade que em cinco anos foram 14 fins de namoro e 15 voltas apaixonadas. Mas contando bem direitinho, eles haviam ficado mais tempo juntos do que separados, uns 4 dias pra ser mais exat, logo, saldo positivo. E isso pra eles já bastava, pois tudo era lógico, se amavam e pronto. Apesar das traições por parte dele, das mentiras por parte dela, das humilhações e gritos raivosos por parte de ambos, eles se amaam e não lutavam muito contra isso. Não eram tão felizes quanto queriam, de vez em quando até odiavam ter de se amar, mas isso não impedia esse maldito sentimento de existir. E eram fracos, não lutavam a maldição. "Comodismo" - diziam alguns.
E depois de 10 anos conhecidos, 5 anos apaixonados, 14 fins de namoro, 15 reconciliações, gritos, traições, mentiras, choros e algumas alegrias, resolveram se casar.
Mas o fato é que ainda não combinavam, e todos ainda tinham certeza disso. "Não dura nem 3 meses", foi o comentário corrente dos amigos durante a cerimônia de casamento.
Mas ninguém havia ainda os convencido de que era impossível viverem juntos, e ainda ignorantes desse impossível, casaram.
E surpreendentemente nunca houve o tão esperado divórcio. Não se sabe bem se foi por finalmente terem conseguido se entender ou para evitar todo o dinheiro e problemas desnecessários presentes no processo de divórcio, já que era claro e óvio que iriam acabar voltando mais cedo ou mais tarde, e daria muito trabalho casar e fazer tudo de novo.

Após 56 anos juntos, 4 filhos, 7 netos e 1 bisneto, se separaram finalmente, desta vez definitiva. Ela o abandonou, não pelas traiçoes, gritos ou humilhações (já não mais tão frequentes graças somente a idade), mas por uma parada cardiaca. E ainda assim a tal maldição ainda não acabou.
Ele não podia viver sem ela, nem ela morrer sem ele. Só precisaram esperar uns três meses, quando ele não mais acordou.

Muitos não acreditam, acham que finalmente houve a inevitável separação. Mas uma meia dúzia foi enfim convencida de que era enfim possível viverem juntos, e que ainda hoje, quando não mais vivem, estão em algum lugar, entre gritos e humilhações, mentiras e traições, enfim, como sempre.
Inclusive as velhas e frequentes separações, mas principalmente, com a eterna e maldita necessidade da volta.


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